O mercado de trabalho brasileiro tem sido frequentemente analisado por meio da taxa de desemprego aberta, que atualmente registra índices históricos baixos. No entanto, essa análise pode mascarar uma questão estrutural mais profunda: o desemprego disfarçado. Esse fenômeno é caracterizado por trabalhadores que, embora formalmente empregados, se encontram em relações laborais com baixa estabilidade, alta rotatividade e escassa proteção contratual.
A precarização do trabalho no Brasil não pode ser atribuída apenas a crises conjunturais. A recente evidência aponta para uma transformação na estrutura produtiva do país, refletindo não apenas dificuldades cíclicas, mas também uma mudança significativa na capacidade de criar empregos estáveis e produtivos. Os chamados empregos atípicos, que se distanciam do contrato celetista tradicional, têm se expandido, evidenciando uma deterioração qualitativa do mercado de trabalho.
Um olhar mais atento à trajetória do emprego revela a evolução dos vínculos atípicos formais. Em 2006, esses vínculos representavam aproximadamente 26,8% do total de empregos formais. Contudo, esse percentual começou a cair, chegando a 23% em 2012, o menor nível observado na série histórica analisada. Esse declínio foi associado a um período de crescimento econômico acentuado, caracterizado por investimentos robustos, expansão da construção civil e valorização do salário mínimo.
Com o tempo, a estrutura produtiva do Brasil passou a perder densidade tecnológica, resultando em uma capacidade reduzida de gerar empregos de maior qualidade e estabilidade. O problema do mercado de trabalho vai além da simples falta de empregos; trata-se de uma crescente dificuldade em criar ocupações que ofereçam melhores condições e salários. Economias mais complexas e industrialmente densas tendem a proporcionar relações laborais mais estáveis e produtivas.
Sem uma estratégia robusta de reindustrialização, o desemprego disfarçado provavelmente continuará a ser uma das principais manifestações da dualidade estrutural que caracteriza o mercado de trabalho brasileiro. A necessidade de uma abordagem mais integrada para enfrentar essas questões se torna cada vez mais evidente, uma vez que a qualidade das ocupações é fundamental para o desenvolvimento sustentável do país.
(*) José Luís Oreiro é professor associado do Departamento de Economia da Universidade de Brasília. Doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Stefan Wilson D'Amato é doutor em Economia Aplicada pelo CEDEPLAR/UFMG.
