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Chikungunya em Dourados revela abandono histórico das comunidades indígenas

A epidemia de chikungunya em Dourados evidencia a falta de infraestrutura e os problemas sociais enfrentados pelas comunidades indígenas. Com mais de 18% dos moradores da Reserva Indígena infectados, a situação é crítica e reflete o desamparo histórico do poder público.
Caixas d'água abertas foram o estopim para a epidemia — Foto: Caixas d'água aber
Caixas d'água abertas foram o estopim para a epidemia — Foto: Caixas d'água aber

A epidemia de chikungunya em Mato Grosso do Sul não é um fenômeno isolado, mas sim o resultado de uma série de problemas históricos na Reserva Indígena de Dourados. A falta de água potável, a ausência de coleta de lixo e condições precárias nos postos de saúde contribuíram para que as aldeias Jaguapiru e Bororó se tornassem o epicentro do surto no estado. Além disso, a realidade das mais de 13,6 mil pessoas que habitam a reserva inclui insegurança alimentar, escassez de policiamento, alta criminalidade e a disputa por oportunidades nas escolas e empregos para as etnias Guarani, Kaiowá e Terena.

No marco dos 124 anos da Reserva Indígena, o Jornal Midiamax destacou as condições enfrentadas pelas comunidades em um trabalho especial. As reportagens abordaram não apenas os problemas sociais que impulsionam epidemias, mas também revelaram um quadro de abandono pelo poder público. As memórias dos indígenas e documentos históricos foram utilizados para ilustrar as dificuldades e as perspectivas pessimistas que cercam o futuro da Reserva.

Dourados se tornou o epicentro da chikungunya no Brasil, com 14 mortes registradas neste ano, sendo dez delas de indígenas, incluindo três bebês e uma criança. O estado já contabiliza mais de 12,8 mil casos da doença, e quase 18% dos habitantes da Reserva Indígena foram infectados. A epidemia não é apenas uma questão de saúde, mas também um sintoma de uma situação mais ampla de descaso e abandono.

De acordo com o Censo de 2022 realizado pelo IBGE, 98,54% dos 13.673 moradores da reserva são indígenas. As aldeias possuem 3.527 domicílios, no entanto, apenas 12,96% têm acesso a rede de esgoto e apenas 2,01% dispõem de coleta de lixo. Esses dados evidenciam a precariedade das condições de vida na região.

O cacique da Aldeia Jaguapiru, Terena Vilmar Martins Machado da Silva, de 51 anos, afirma que o surto de chikungunya era uma situação esperada. Ele ressalta que a comunidade vive em completo abandono, sem segurança e com serviços de saúde deficientes. Segundo ele, as condições que levaram ao surto poderiam ter sido evitadas com uma atuação mais efetiva do poder público.

Documentos históricos ressaltam que a ligação entre a Reserva e a cidade de Dourados gera problemas sociais diversos, como alcoolismo, prostituição e violência. Em 1991, um relatório já destacava casos de suicídios entre indígenas devido a fatores como situação econômica precária e abandono institucional. A conclusão enfatizava a necessidade de medidas que incluíssem questões fundiárias, econômicas, de saúde e educação. Tais documentos estão disponíveis no Acervo do Museu Nacional dos Povos Indígenas.