A encíclica Magnifica Humanitas discute, no capítulo IV, entre os números 182 e 210, a construção de uma "civilização do amor". Essa proposta não surge como uma simples exortação ou ideal distante, mas fundamenta-se em uma análise profunda da realidade histórica contemporânea. O Papa Leão XIV apresenta o amor como um princípio essencial que estrutura a vida em comunidade, destacando a necessidade de uma antropologia relacional.
Nesse contexto, a encíclica critica o paradigma tecnocrático, que se tornou predominante na compreensão do progresso. Embora a técnica represente a criatividade humana e seja um instrumento válido para o desenvolvimento, a sua aplicação sem uma orientação ética pode resultar em uma lógica que reduz a existência humana a meros processos técnicos. O texto enfatiza que o problema reside não na tecnologia em si, mas na ideia de que ela pode, sozinha, definir o que é bom ou justo para a humanidade.
A encíclica ressalta uma fragilidade significativa da sociedade contemporânea: a ampliação do poder humano sobre a realidade não foi acompanhada pelo aumento correspondente da responsabilidade moral e da sabedoria política. Nesse cenário, surge uma nova compreensão da pessoa humana, que deve ser vista além de reduções funcionalistas ou econômicas. O ser humano é essencialmente relacional, e sua realização ocorre na relação com o outro.
A vida humana é definida pela reciprocidade e pela capacidade de comunhão. Essa perspectiva tem implicações profundas para a estrutura social. Se o ser humano é um ser de relações, a sociedade não pode ser reduzida a contratos e interesses, mas deve ser entendida por meio de um horizonte regulador que guie a ação humana. Esse critério é crucial para avaliar instituições, políticas públicas e sistemas econômicos, pois deve promover a dignidade e a fraternidade entre os seres humanos.
A originalidade da Magnifica Humanitas está em reintroduzir o amor como categoria central na reflexão social. Com isso, a encíclica sugere que o futuro da humanidade depende mais da capacidade de restaurar relações humanas baseadas em reconhecimento, solidariedade e responsabilidade compartilhada do que da mera ampliação do poder técnico. A civilização do amor é apresentada não apenas como um ideal espiritual, mas como um projeto social, um princípio de ação política e um fundamento normativo para o direito, especialmente em um tempo que busca novos significados para a convivência humana.
(*) José Geraldo de Sousa Júnior é professor da Faculdade de Direito e do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Cidadania e ex-reitor da Universidade de Brasília.
