Eu sempre penso que, quando algo nos incomoda na pesquisa, a crítica deve começar por nós mesmos. E, nas ciências sociais, a autocrítica ocupa um lugar central na tradição reflexiva. No entanto, essa autocrítica não pode ignorar que não pensamos nem escrevemos no vazio: tudo o que fazemos enquanto pesquisadores é sempre para um público e para a sociedade de forma mais ampla.
Talvez por isso seja preciso olhar também para o ambiente em que nossas ideias passam a circular e a ser recebidas. No meu caso, essa reflexão surgiu de um campo específico, o dos recursos naturais. Pesquisar nesse campo é lidar, inevitavelmente, com questões sensíveis e controversas.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
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E, quando digo sensíveis, não falo apenas do ponto de vista socioambiental, mas também político, geopolítico, econômico, territorial e, por vezes, pessoal. Digo isso porque já ouvi, de colegas, coisas como “isso não deve ser dito” ou “melhor não escrever dessa forma”. Aos poucos, comecei a estranhar o fato de ter que ajustar o que escrevo, e até a minha imaginação científica, não por razões teóricas ou éticas, mas pelo que esperam que eu diga, ou para evitar problemas com x ou com y.
Nesse cenário, o esforço de “suspensão de valores”, feito por quem, nas ciências sociais, busca observar um fenômeno complexo, não como crença na neutralidade da ciência, mas como condição mínima para compreender a realidade, torna-se mais difícil de sustentar.